UMA REFLEXÃO NADA OTIMISTA

“Para quem não tem nada, metade já é o dobro”. Um pensamento de para-choque de caminhão define bem o ingresso do Brasil no ranking dos países com “alto desenvolvimento humano“. A entrada da terra do futebol nesse seleto grupo foi comemorada após a divulgação do relatório sobre o Índice de Desenvolvimento Humano, elaborado pela Organização das Nações Unidas, através do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. O Brasil figura em 70º lugar, atrás de países como Brunei, Barbados, Catar, Costa Rica e até mesmo da tão mal-falada Cuba. Discursos inflamados e foguetórios ao ar para celebrar o que a maioria da população tupiniquim não consegue enxergar: o desenvolvimento sustentável – vale repetir, sustentável! – do país mais desigual entre os iguais. O IDH é calculado a partir da renda média, da expectativa de vida e da educação dos cidadãos acima de 15 anos – muito embora este item leve em conta apenas o número de matriculados, desprezando indicadores de suma relevância, tais como evasão e desníveis de aprendizagem. A escala de avaliação vai de 0 a 1, onde quanto maior o índice, mais desenvolvimento humano tem o país -, ao menos teoricamente. É fato que o niilismo em demasia é sempre prejudicial, mas já se tornou lugar comum discutir questões relacionadas à evolução preguiçosa do Brasil. Há 15 anos, o nosso IDH era de 0,723; hoje, estamos em 0,800. A passos de tartaruga, caminhamos rumo ao desenvolvimento, com o corpo esquálido, ardendo em escárnio. Mas nem tudo está perdido. O Brasil progrediu bastante ao longo do século 20 e hoje desfruta de uma posição relativamente importante na atual conjuntura geopolítica e econômica mundial: é o maior exportador de commodities agrícolas, tem reservas de petróleo – e de dólares! – consideráveis, está avançando a passos largos rumo à produção de energia limpa, sua democracia parece dar sinais de estar bem consolidada, etc. Além dessas constatações, vale salientar o avanço em indicadores relativos à participação feminina no mercado de trabalho, redução do analfabetismo, aumento da renda per capta e ampliação de serviços de saúde, segurança e saneamento. No entanto, em um mundo cada vez mais informatizado e integrado, onde os avanços tecnológicos permitem movimentos impensáveis cerca de 20 anos atrás, a posição do país verde-amarelo no ranking do PNUD deixa muito a desejar. Nas bandas de cá, podemos constatar um fenômeno ímpar, por não dizer curioso – até para o mais competente dos cientistas sociais: a existência de dois Brasis. Um que mora num apartamento à beira-mar, tem televisão e internet a cabo, faz compras no shopping, tem um diploma no currículo e se locomove de carro. E o outro que não mora, apenas dorme em algum lugar, não tem acesso à água, energia, saneamento, não sabe sequer o que elevador existe. Não vive, apenas sobrevive. Indubitavelmente, seria uma ilusão crer na universalização dos direitos básicos, mesmo nos países mais adiantados, visto o atual estágio de desenvolvimento do sistema capitalista, caracterizado pela hegemonia dos mercados financeiros – onde reina a máxima positivista do “mais competente, mais rico”. Avançamos, sim. Se não tivéssemos o feito, seria um contra-senso enorme – até os países mais pobres da África progrediram. Mas, mesmo assim, temos a democracia representativa mais corrupta do mundo, os meios de comunicação mais perversos e imparciais, os mais altos níveis de violência e de desrespeito às leis, entre outras inúmeras deficiências. Não seria exagero afirmar que o Estado de Direito brasileiro é o mais deficitário do mundo. Aqui, quem rouba um pote de margarina vai direto para o xadrez. Já quem desvia milhões do erário público apenas descansa em cárcere privado, usufruindo das mais diversas regalias. Os números publicados no IDH são importantes e, sobretudo, estimulantes. O Brasil ainda é aquele gigante atabalhoado dos tempos de independência, que não sabe o que faz nem para onde vai, e o ingresso nesse ranking dos países com “alto desenvolvimento humano” talvez lhe dê um novo gás. Vamos esperar…

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